UMA JOIA VOLTA A BRILHAR EM NITERÓI: PREFEITURA RECUPERA ILHA DA BOA VIAGEM

O trabalho recuperou vários pontos originais da edificação, que remonta a 1734

Aydano André Motta

Uma joia da coroa de encantos da Baía de Guanabara voltará a reluzir em breve. A Ilha da Boa Viagem, recanto sedutor do litoral de Niterói, está perto de ser reaberta para visitação, após longo período fechada. Agora, se apronta para virar nova atração da cidade, conjugando o peso da história, a paisagem deslumbrante e o cuidado moderno com as construções que sobreviveram ao tempo.

Parte do patrimônio arquitetônico histórico da cidade, o lugar, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), passa por minuciosa obra de restauração, que demandou investimento de R$ 5,5 milhões da Prefeitura de Niterói. O trabalho recuperou vários pontos originais da edificação, que remonta a 1734.

Encarregada do projeto, a Secretaria de Ações Estratégicas e Economia Criativa trabalhou em parceria com a Unesco na obra. As intervenções, iniciadas em 20 de fevereiro do ano passado, recuperaram a linda capela de Nossa Senhora da Boa Viagem, o fortim e o casarão conhecido como castelo, que teve como últimos inquilinos os escoteiros.

“Estamos aproveitando todo o potencial histórico e natural da ilha, que tem uma relação muito grande com a Baía de Guanabara”, explica André Diniz, o secretário de Ações Estratégicas e Economia Criativa. “A ideia é resgatar isso através de exposições na Ilha Museu, com uma série de estruturas e interações, onde se vai poder perceber a ilha no tempo”, planeja ele.

As reformas no pequeno templo incluíram adequação da rede elétrica, instalação de ar-condicionado, nova iluminação e banheiros. Ao lado dela, está em andamento o conserto de um poço que se transformará em cisterna, com água pluvial e potável para abastecer o conjunto da ilha. O reuso está na moda, em tempos de crise climática, mas a preocupação existe desde a construção original – o reservatório previa, já no século XVII, o aproveitamento da água da chuva.

A recuperação do lugar tem como alicerce a preocupação histórica. Para garantir a segurança de prédios tão antigos, o movimento inicial foi de contenção das encostas e melhoria dos acessos – várias gerações de niteroienses cresceram sob a sombra dos perigos da frágil ponte que fazia ligação com o continente. Hoje, acabou: uma sólida construção de concreto permite acessar a ilha sem susto.

Registros apontam 1702 como ano da construção

A visita carrega o encanto de uma viagem no tempo. O piso de pedra, os degraus altos e as ladeiras íngremes guardam a memória dos tempos em que a pequena ilha era estratégica para as batalhas em torno da baía. A visão privilegiada tornou a ilha parte do antigo sistema defensivo brasileiro. Registros históricos apontam 1702 como marco de início da construção do fortim, que tinha entre cinco ou seis peças de artilharia. O casarão, conhecido como castelo, foi erguido na década de 1940 e abrigou a sede dos Escoteiros do Mar.

A preocupação com a restauração obrigou os responsáveis pelo trabalho a encomendar telhas sob medida para todas as construções do lugar. No estilo “capa e bica”, típico dos tempos coloniais, têm 71 centímetros, padrão muito diferente do atual.

E ainda tem a vista. Por todos os lados, as belezas do litoral entre Rio e Niterói são um convite à observação demorada, que busca os detalhes e se encanta com o mar emoldurado pelas montanhas. Estão lá a entrada da Baía, o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, as curvas das praias da cidade entre Gragoatá e Icaraí. Um espetáculo.

““Após as obras, vem o trabalho museológico”, diz Axel Grael

A Boa Viagem será a primeira do país sob o conceito de Ilha Museu, destaca o prefeito de Niterói, Axel Grael, com experiências interativas desde a entrada, e várias atrações para os visitantes. “Após as obras, vem o trabalho museológico de preparar as exposições. Vamos franquear o acesso a um espaço histórico e cultural da cidade que ficou fechado por muitos anos”, festeja ele.

Até o fim do ano, haverá visitas controladas para pequenos grupos, em respeito à pequena estrutura da ilha e, assim, garantir a qualidade da experiência. “Queremos que seja mais um orgulho para os niteroienses e que as pessoas saiam daqui também com uma visão educativa”, conclui o prefeito.