QUAQUÁ, UM CONSERVADOR REVOLUCIONÁRIO

POR RICARDO BRUNO, CHEFE DE REDAÇÃO

O garoto que saiu da Favela do Caramujo, em Niterói, aos 11 anos, para décadas depois mudar a vida das pessoas em Maricá, está de volta. Com cabelos grisalhos e alguns quilos a mais a trair os 51 anos, ele continua prenhe de ambições, rebeldias e sonhos. Se na cidade onde foi prefeito por dois mandatos adotou políticas públicas inovadoras, ou revolucionárias, para usar uma expressão afeita à esquerda, na Câmara dos Deputados em Brasília, onde estreia em 1º de janeiro, não pretende deixar por menos.

O deputado Washington Luiz Cardoso Siqueira, simplesmente Quaquá como chamam-no seus eleitores, deseja ser o artífice, ao lado de Lula, de um audacioso Pacto Democrático de Prosperidade Nacional para os próximos 30 anos. Leva para Congresso inquietude e inconformismo visceral com status quo. O mesmo que o fez, por exemplo, criar em Maricá o ônibus com tarifa zero, a despeito das ameaças e previsões pessimistas. Hoje, os “vermelhinhos” são referência mundial em políticas públicas.

Sociólogo por formação, Quaquá é um autêntico representante da esquerda de resultados. Longe de uma leitura pejorativa, o pragmatismo de suas posições visa a atingir a transformação possível em um regime democrático com forte presença conservadora na sociedade. É um reformista, digamos, para usar um conceito desenvolvido pelo pensador Carlos Nélson Coutinho.

—Reformista e revolucionário – corrige-me ele, acrescentando:

— Essa tese do Carlos Nelson era muito atacada pelos esquerdistas, inclusive eu, que fui trotsquista. Mas num país desigual como o Brasil, o reformismo é revolucionário.

Convertido à necessária modulação das mudanças, ele quer unir as forças políticas do Rio em torno de um projeto de transformação das bases sociais do estado. Juntar Lula, Claudio Castro e Eduardo Paes para mudar os paradigmas das políticas públicas. O primeiro passo seria a implantação da Nova Brasil, a conversão da via, de Santa Cruz ao Centro, num corredor de emancipação social com ônibus e trens de graça, condomínios do Minha Casa Minha Vida, moeda social, escolas em tempo integral e atendimento de saúde, emprego e geração de renda. O que hoje é uma área violenta e degradada se converteria em modelo de metamorfose urbana.

— O Cláudio Castro vai estar com Lula nessa. Ele não é bolsonarista, é um democrata. Gosta de obras e tem sensibilidade social. O Eduardo Paes é um parceiro, um amigo.

Na entrevista central desta edição, Quaquá se declara um conservador nos costumes – “nunca admiti o aborto de uma mulher com quem tivesse relação”.  Reprova as narrativas identitárias agressivas da classe média.  Faz autocrítica franca e ferina sobre a crise da esquerda brasileira. Defende uma composição com o Centrão para a implantação de mudanças. E propõe estreito diálogo com os evangélicos.

— Quando fui prefeito de Maricá, criei a secretaria de assuntos religiosos, comandada por um pastor e por um carola católico. Os petistas vieram reclamar. O PT é um partido laico. Eu respondi: na terra e na lama que eu piso, laica é nome de cachorrinha.

Ousar é verbo-síntese de seu comportamento diante da vida. Ao longo de sua trajetória, ele o conjuga em quase todos tempos e pessoas. É desta irresignação atávica que retira força e ideias para, através da política, mudar a vida das pessoas.

Em seu indeclinável propósito de mostrar o Rio que dá certo, a “Rio Já” traz também nesta edição um perfil da primeira deputada assumidamente amarela do estado. Filha de japonês, a professora Erika Takimoto chega à Assembleia Legislativa com o aval de quase 100 mil eleitores, o que lhe confere o título de mulher mais votada do Partido dos Trabalhadores no parlamento fluminense.

Escritora e ativista política com forte atuação nas redes sociais, Erika crê em novos tempos para o Brasil e, especialmente para o Rio, com a eleição de Lula.

— O fato de entrar um presidente que respeita o diálogo e combate o discurso de ódio, vai facilitar nosso trabalho na Alerj – acredita.

Na bancada do PT, ela terá a companhia de um neófito e promissor parlamentar: o jovem André Luiz Ramalho Ceciliano, o Andrezinho, como é chamado o filho do atual presidente, André Ceciliano.

Aos 24 anos, o estudante de direito é o mais jovem deputado estadual eleito no Rio e acredita que a convivência com o pai, com 25 anos de vida pública, o credencia a ser um parlamentar capacitado para os embates do parlamento.

— Com ele, adquiri o interesse pela política, a compaixão, a empatia e o respeito ao ser humano.

Com a entrevista de Quaquá e os perfis de Erika e Andrezinho, nossa revista tenta decifrar o que o Rio pode esperar do governo Lula e da atuação desses novos e importantes protagonistas da política fluminense.

Há razões de sobra para dobrar a aposta em dias melhores.