ARTE: A LAPA EMBANDEIRADA

Com o Festival das Bandeiras, Galeria Paulo Branquinho reabre e reforça a luta da Rua das Artes para tornar o bairro mais bonito e mais seguro

Caroline Rocha

Após três anos de portas fechadas, a Galeria Paulo Branquinho voltou a movimentar a tranquila Rua da Arte na Lapa, na Zona Central do Rio. A reabertura da casa representou não só o retorno de um espaço cultural na Rua Morais e Vale, mas também a reinauguração de um local engajado na melhoria da infraestrutura da região.

Criada em 2016, a galeria colaborou para a integração entre os vizinhos e a valorização imobiliária. Antes escura, deserta e usada como ponto de tráfico de drogas, a via transformou-se em palco para encontros recheados de música e dança. Os artistas aproveitam as reuniões descontraídas para se organizar na reivindicação da conservação da área e realizar intervenções artístico-urbanas, como pintura das fachadas, produção de cortinas e implementação de luzes.

A Rua da Arte, que já foi morada de nomes emblemáticos da cultura, como o poeta Manuel Bandeira, a compositora e pianista Chiquinha Gonzaga e o transformista Madame Satã, também recebeu obras para saneamento básico este ano e grande parte das casas, antes em ruínas, estão em obras.

“Virou um jardim”, descreveu o dono da galeria sentado na calçada observando seu cachorro brincar. “A Morais e Vale deu uma boa melhorada. Quando eu cheguei dava medo de passar por aqui”, contou Paulo Branquinho, que mora no local há 15 anos. A galeria é a sala do artista, que vive nos fundos do imóvel. As exposições também ocupam outras duas casas vizinhas cedidas por amigos.

O artista ainda planeja expandir a iniciativa para outras cidades

Enquanto relembrava as transformações nos últimos sete anos, Branquinho foi interrompido pelo grito de um transeunte. Olhando para cima, ele elogiou as centenas de bandeirolas que colorem a via. A instalação faz parte do Festival de Bandeiras, que cobre a rua da arte de ponta à ponta.

A ideia do festival é reinventar a decoração clássica de festas julinas. As bandeiras de 50cmx40cm são usadas como tela para artistas abordarem desde temas culturais a questões políticas. Vale todo tipo de material que resista à ação do tempo, como madeira, acrílico, ferro, lona, plástico, palha…

A edição deste ano contou com a participação de mais de 150 artistas brasileiros e internacionais. Entre os convidados, estão veteranos e iniciantes. De acordo com Branquinho, o objetivo é criar um espaço de colaboração entre profissionais de diferentes gerações. “Eu tento fazer com que os mais novos deem um gás nos mais velhos, e os mais velhos transmitam experiência aos mais novos. É uma troca constante”, afirmou o dono da galeria.

O sucesso foi tanto que, após diversos pedidos, Branquinho prorrogou o prazo da instalação. O festival, que antes ficaria até dia 30 de julho, agora poderá ser visitado até dois de setembro.

O artista ainda planeja expandir a iniciativa para outras cidades, estados e até países. Paulo Branquinho quer unir o acervo de quase 300 bandeiras à produção de artistas locais e colorir diversas ruas ao redor do mundo. Entre as metas, está São Luís, no Maranhão, no Nordeste do país.