A REDENÇÃO DO QUITANDINHA

Quintandinha: o prédio histórico se tornou centro cultural

Jan Theophilo

Um dos mais famosos cartões postais do Rio de Janeiro está retomando sua vocação cultural. Comprado pelo SESC em 2007 e após inúmeras reformas que trouxeram de volta todo seu esplendor, a área monumental do Palácio Quitandinha, em Petrópolis, deixou de ser apenas mais uma unidade do sistema e foi reinaugurada como Centro Cultural Quitandinha, um espaço com entrada gratuita dedicado exclusivamente à promoção das artes em suas múltiplas linguagens, além de gastronomia fina e preservação da memória e entretenimento. E sua riquíssima história, que se confunde com a história nacional, será contada de forma interativa por meio da mostra permanente “Sons da Memória: uma caminhada sonora”.

Uma história que é superlativa em todos os sentidos. O Quitandinha foi construído pelo empreendedor mineiro Joaquim Rolla, que começou a vida como tropeiro, vendendo produtos carregados em lombos de burros. No começo do século passado ele se tornou amigo de um promissor político chamado Arthur Bernardes, que viria a se tornar governador de Minas Gerais e depois presidente do Brasil. Durante sua passagem pelo governo mineiro, Bernardes concedeu a Rolla oportunidades na construção de estradas de ferro pelo estado. A partir dali ele iniciaria sua trajetória que logo o transformaria em um dos homens mais ricos do país.

Em 1939, Rolla começou a construir seu grande sonho: o Palácio Cassino Quitandinha, projetado para ser o maior e mais elegante da América Latina. A conjuntura não podia ser menos propícia. A Segunda Guerra Mundial estava começando, dando origem a um período de grande carestia pelo mundo. Faltava de tudo. Mas isso não foi problema para o empresário, já consolidado como dono de uma rede de cassinos no Brasil, entre eles o icônico Cassino da Urca. Ele comprou uma fazenda de 28 hectares da tradicional família Oliveira Sodré e mobilizou um exército de quase 1.500 operários, trabalhando dia e noite na construção. O espetacular castelo projetado pelo italiano Luis Fossati faz referência ao estilo neo normando, uma tendência dos grandes cassinos europeus da época. Pode-se dizer que o conflito mundial deu uma mãozinha para a decoração, com inspiração em cenários hollywoodianos. Ela foi assinada pela designer de interiores Dorothy Draper, considerada uma das maiores decoradoras dos Estados Unidos desde a década de 1920, e que estava sem contratos de trabalho em seu país devido à escassez gerada por um mundo em guerra.

“O Quitandinha foi certamente o maior empreendimento privado realizado no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial”, disse Flávio Menna Barreto, autor do livro “Apostas erradas: o breve império do Cassino Quitandinha”. Para dar uma ideia do colosso, se todos os tijolos usados na construção fossem perfilados em um muro de um metro e meio de altura, ele teria quase 1.800 metros de comprimento – o mesmo da Avenida Rio Branco. Os mais de 20 mil metros quadrados de azulejos poderiam revestir todo o calçadão da Avenida Atlântica. A mesa telefônica, com 800 ramais, era a segunda maior central telefônica do país. O cassino contava ainda com uma central de energia capaz de abastecer uma cidade de 20 mil habitantes – e até uma praia foi construída no alto da serra. “Centenas de caminhões trouxeram toneladas de areia da praia de Copacabana para fazer as margens do lago, cujo fundo era recoberto por lajotas e seu desenho formava o mapa do Brasil”, contou Luís Boralli Garcia, que foi administrador do prédio por 27 anos e autor da “História do Quitandinha: da construção aos dias atuais”.

“Joaquim Rolla era um visionário. Ele pensava não só num cassino, mas em um complexo hoteleiro voltado para atividades esportivas e programação cultural”, contou Flávio Menna Barreto. Uma frota de carros de luxo estilo “rabo de peixe” da montadora Packard ficava estacionada na Avenida Rio Branco para o traslado de curiosos e apostadores. “Rolla chegou a orçar a compra de 12 helicópteros, quando nem a Força Aérea Brasileira possuía modelos deste tipo”, disse Flávio. Na época dourada, o Palácio Quitandinha oferecia aos hóspedes e visitantes espaços como boates, cinema, quadras de esportes, pista de patinação no gelo e três piscinas. Além, é claro, de inovadoras piscinas térmicas construídas para competições de saltos ornamentais e que foram inauguradas pela estrela do cinema Esther Williams.

O motor do empreendimento, o cassino propriamente dito, ficava no chamado Salão Mauá, com pé direito de mais de 30 metros e uma cúpula de 46,4 metros de diâmetro, a segunda maior do mundo depois da cúpula da Basílica de São Pedro, no Vaticano. O eco gerado em seu ponto principal pode repetir a voz de uma pessoa até 14 vezes. Imagine isso com barulhos de fichas, roletas e carteados. Foi construída também uma rede de água e esgotos que funciona até hoje. Segundo os pesquisadores, em valores atualizados, a construção do Quitandinha teria custado uma bobagem de US$ 150 milhões.

A inauguração, em 12 de fevereiro de 1944, teve banquete para mais de dois mil convidados e a festança foi transmitida ao vivo pela TV Tupi. Durante seus dois anos e três meses de glórias, muitas personalidades do show business estadunidense passaram pelos corredores ou dançaram em seus salões. Nomes de peso, como Walt Disney, Orson Welles, Errol Flynn, Marlene Dietrich, Greta Garbo, Henry Fonda, Bing Crosby, além do presidente argentino Juan Perón e sua mulher Evita. A atriz e pin up Lana Turner, um dos maiores ícones do cinema clássico de Hollywood, veio ao Rio no auge da fama passar o carnaval. Quando conheceu o Quitandinha, escolheu a boate do hotel para comemorar o aniversário com uma festa de arromba e ainda passou um mês morando na suíte presidencial 200. Getúlio Vargas, sempre que podia, dava uma escapadinha do Catete e marcava presença no cassino.

Até que em 1946 Dona Santinha, mulher do presidente Eurico Gaspar Dutra, conhecida por ser muito carola, convenceu o marido que os cassinos atentavam contra a “moral e os bons costumes”. E em 30 de abril de 1946, apenas três meses depois da posse, o general surpreendeu o país baixando um decreto que decretou o fim dos jogos de azar. Mais de 70 cassinos foram fechados e cerca de 40 mil pessoas ficaram desempregadas. “Foi um golpe mortal. Mas Joaquim Rolla ainda tentou se reinventar, organizando competições esportivas, espetáculos musicais e conferências de estado”, diz Flávio Menna Barreto.

Uma delas, em 1947, com a presença do presidente estadunidense Henry Truman e presidida por Oswaldo Aranha, foi a Conferência Interamericana de Assistência

Recíproca, que viria a resultar na criação da Organização dos Estados Americanos (OEA). Rolla tentou várias estratégias, até que em 1963 vendeu o Quitandinha ao empresário paulista Adelino Boralli. Antes, em 1954, os quartos e suítes foram vendidos a particulares. Hoje o prédio conta com 426 apartamentos de metragens diferenciadas (alguns proprietários compraram os quartos vizinhos ampliando sua área) e preços que vão dos R$ 300 mil a R$ 1,5 milhão. O acesso dos moradores ao centro cultural é o mesmo dos demais visitantes. Joaquim Rolla morreu em 1972.

De acordo com a direção do Sesc, a mudança do Quitandinha é conceitual e prática, como resultado da experiência do público visitante. O espaço ganhará uma programação regular de shows, artes cênicas e atividades literárias e audiovisuais,  com temática que dialogará sempre com uma grande exposição, que ocupará os diversos salões do palácio. A mostra de abertura é “Um oceano para lavar as mãos”, um conjunto de obras de artistas negros que apresentam suas impressões e perspectivas sobre o período das navegações e as relações da Petrópolis Imperial com a questão afrobrasileira.

Outra novidade é o Q Bistrô, um local dedicado à gastronomia tropical com cardápio assinado por Andressa Cabral, chef carioca que estudou na Alain Ducasse Formation, escola internacional de gastronomia e é sócia do badalado Meza Bar, no Humaitá. O Q Bistrô funcionará das 10h às 17h no espaço do antigo Bar Central, local que recebeu os primeiros visitantes do palácio quando ele ainda estava em construção no início dos anos 1940. Era ali no Bar Central que Joaquim Rolla recebia personalidades políticas e influenciadores da época para visitas ao canteiro de obras. Agora, o local se tornará mais uma opção de boa gastronomia na cidade e um importante serviço aos visitantes.

O Q Bistrô funcionará em um salão com 115m² com capacidade para 31 pessoas sentadas, contendo bar e lounge de espera, mais a varanda com capacidade para 24 pessoas sentadas. O nome faz referência ao famoso “Q”, marca registrada do empreendimento nos seus tempos áureos e que era impresso em pratos e talheres utilizados por personalidades da época que visitaram o local.

Elementos históricos foram preservados, com destaque para a parede de azulejos pintados à mão, com motivos verdes sobre o fundo branco. Um relógio de cedro também traz à lembrança os tempos áureos do hotel-cassino. Já o Q Café, com dimensões menores, será um ambiente dedicado a refeições rápidas para receber os visitantes para uma pausa entre uma e outra atração cultural.

Como recordação, os visitantes podem adquirir, na Q Boutique, suvenires estilizados com referências à história e à arquitetura do Palácio. Caderno, caneta, lápis, necessaire, porta copo, marcador de página, ímã de geladeira e ecobags estão entre os itens à venda. Todos os itens foram desenvolvidos com base na paleta de cores definida por Dorothy Parker.

No escopo do projeto há ainda novidades que serão implementadas a partir de 2024 e que estão em fase de conceituação: o Salão Roosevelt ganhará um cinema; o boliche passará por reformas para adequação de conceito; e a Cozinha, localizada nos bastidores do palácio e onde foram preparadas refeições para personalidades como Getúlio Vargas e Orson Welles, abrigará um Mercado Gastronômico. A expectativa é que o projeto impulsione as cadeias produtivas ligadas ao turismo, à cultura e agricultura familiar na região.