Jan Theophilo
No desfile das escolas de samba deste ano, um impressionante pelotão de 16 personalidades receberá homenagens nos enredos. Há de tudo na lista: políticos, artistas, militantes, mas nessa constelação toda, ninguém reluz mais do que o mato-grossense Ney Matogrosso de Souza Pereira, 84 anos. Ou como todo mundo sabe, apenas Ney Matogrosso, o multitalentoso artista “Camaleônico”, título do tema da Imperatriz Leopoldinens, que desfilará na primeira noite da maratona do Grupo Especial. Será a consagração para um artista que sempre desafiou limites e agora terá sua arte eternizada no maior palco brasileiro. Um momento que havia sido projetado, sem sucesso, em diversas ocasiões, mas agora encontrou a hora certa.
Segundo Leandro Vieira, carnavalesco da escola, no mundo do samba havia o boato de que o cantor teria negado inúmeros convites semelhantes. Até que, assistindo a uma entrevista, Leandro vislumbrou uma janela de oportunidade quando percebeu que Ney estava lançando muitos conteúdos biográficos, como o filme “Homem com H”, apresentado no ano passado. “Tô vendo livro, tô vendo teatro, cinema. Falei: ‘acho que a porteira está aberta'”, conta o carnavalesco.
Ele entrou em contato com o artista e fez um apelo: “Só quero te pedir o seguinte: não me negue agora o direito de sonhar”. Ney diz que respondeu: “Pô, como é que vou impedir o camarada de sonhar, não é isso? Sempre me achei um estranho nesse ninho, não era tipo uma meta na minha vida. Mas a partir do momento que disse sim, me entreguei para a história. Acho que vai ser um Carnaval lindo. Vai ser mesmo”.
Mesmo com décadas de carreira e inúmeras apresentações marcantes para plateias expressivas, a emoção de ser tema na Sapucaí é algo novo para Ney Matogrosso, que desde a década de 1970 recusa convites do tipo. “Já assisti ao Carnaval várias vezes e desfilei como convidado. Imagino que a emoção seja forte, mas a ficha ainda não caiu”, brinca. Afinal, ser o centro das atenções de uma das maiores festas do planeta, através da arte de uma escola campeã, é privilégio para poucos. A expectativa é enorme para ver como a Imperatriz transformará a rica trajetória de Ney em um espetáculo visual e sonoro que ficará para a história do Carnaval carioca.
“O Ney Matogrosso é uma grande personalidade do nosso cenário artístico. Não é só um grande intérprete da música popular brasileira, é alguém que, além de um universo musical, está num universo imagético muito poderoso. Então, juntar música, imagem e essa pontinha de loucura, de liberdade, acho que é muito carnavalesco”, sustenta Vieira. “O Ney é uma bomba carnavalesca que me interessa, e é uma bomba carnavalesca afinada com essa Imperatriz mais solta, com mais vontade de fazer dos seus carnavais uma experiência de alegria e de liberdade”.
Cátia Drumond, em seu quinto ano de gestão à frente da escola, não escondeu o entusiasmo com a escolha e a execução do projeto. A presidente ressaltou a confiança no trabalho de Leandro Vieira, um dos nomes mais celebrados do Carnaval carioca, que tem sido fundamental para a sequência vitoriosa da agremiação nos últimos anos. “Desde que temos o Leandro, tem dado certo. Falei para ele: tudo que você propôs à Imperatriz foi feito da maneira que combinamos”, destaca Drumond, evidenciando a sintonia entre a diretoria e a equipe criativa.
Com o martelo batido, Ney, dedicado como em tudo a que se propôs, iniciou sua imersão no Carnaval e na escola. “O Leandro Vieira me mandava fotos das roupas e cada uma era mais linda do que a outra, até que resolvi conferir in loco”, narra ele, que, ao visitar o barracão, na Cidade do Samba, ficou impressionado com o trabalho minucioso e criativo desenvolvido pela equipe de Leandro Vieira. “As ideias são postas, mas tudo é levado ao extremo. Eu ouso, mas é muito menos. Há, no conjunto de fantasias, uma estética exagerada. É a overdose da loucura. E acho isso muito bom”, exalta o homenageado.
Durante a visita, diante do figurino para a canção “Homem com H”, por exemplo, Ney se alegrou com o deboche e a desconstrução usadas para satirizar o ideal de macho alfa viril sugerida pelo título da obra lançada por ele no início dos anos 1980, com interpretação tão provocativa quanto a proposta pelo carnavalesco. “Acho um deboche ele botar o ‘Homem com H’ inteiro cor de rosa. É linda a roupa. Um deboche. E sou debochado também”, diverte-se. A visita ao barracão, onde a magia do Carnaval é construída peça por peça, é um rito de passagem para qualquer homenageado e, para Ney, serviu como um vislumbre emocionante do que está por vir.
No desfile, além da menção às canções, os personagens incorporados por Ney ao longo de sua carreira ganham versões carnavalescas. É o caso da criatura animalesca criada para o show decorrente do LP “Água do Céu -Pássaro”, lançado em 1975. O personagem, popularizado com o nome de “Homem de Neanderthal” é o que veste uma das alas criadas pelo carnavalesco em tom teatral e fantasioso. “Quando escolhi o universo do Ney como enredo, optei também por banhar o meu trabalho no universo de transgressões estéticas que envolve o homenageado. Com essa proposta junto ‘a fome com a vontade de comer’ no que diz respeito à um Carnaval com mais possibilidades de rupturas na concepção visual daquilo que faço. É um conjunto de fantasias pra sacudir e brincar livre”, detalha o carnavalesco.








