NEI LOPES EM NOVO CICLO

Depois de 31 anos fora da Sapucaí, o sambista e escritor icônico da cultura afro volta a desfilar para que Ifá abra os caminhos do Tuiuti

Lucila Soares

O dia 7 de novembro de 2025 foi de festa na quadra do Paraíso do Tuiuti. Depois de 31 anos ausente da Marquês de Sapucaí por divergências sobre os rumos das escolas de samba e do Carnaval, Nei Lopes disse “sim” a um convite para desfilar. Nesse período, a única exceção foi em 2023, para a homenagem da Renascer de Jacarepaguá a seus 80 anos, com o samba “O Afro-Brasil Reluzente de Nei Lopes”. Fora esse breve parênteses, ele estava longe dos desfiles desde 1994, quando saiu pela Vila Isabel com o enredo “Muito prazer! Isabel de Bragança e Drummond Rosa da Silva, mas pode me chamar de Vila”.

Nei Lopes aceitou o convite porque o enredo, desenvolvido pelo carnavalesco da escola, Jack Vasconcelos, é baseado em seu livro “Ifá Lucumi: o resgate da tradição” (Editora Pallas). Na obra, o escritor apresenta uma pesquisa profunda sobre Ifá, um oráculo do povo iorubá, e sobre o culto a Orumilá, o orixá do destino. O Ifá chegou ao Brasil através de Cuba, e vem despertando interesse crescente nos últimos anos. Nei segue essa vertente filosófica das religiões afro, da qual tornou-se babalaô, e entende que, ao contribuir para divulgar o Ifá no Carnaval, está cumprindo mais uma etapa da missão que o levou a escrever o livro.

O samba composto por Claudio Russo, Luiz Antonio Simas e Gustavo Clarão tem um enredo especial, que começa com o que se pode chamar de coincidência. Russo tinha acabado de ler “Ifá Lucumi: o resgate da tradição” quando seu telefone tocou e, do outro lado da linha, o presidente da Paraíso do Tuiuti, Renato Thor, informou que esse seria o enredo da escola e manifestou sua intenção de convidar Nei Lopes para desfilar.

A partir daí, desenrolou-se quase uma missão diplomática, que teve uma peça-chave em Simas, estudioso de Ifá e babalaô como Nei. Foi ele o porta-voz do convite, só aceito oficialmente na visita à quadra do Tuiuti, quando foi apresentado ao samba “Lonã Ifá Lukumi” (“O caminho de Ifá Lukumi”). Nei estará no carro que encerra o desfile, junto com seu filho Nei Theodoro Lopes, o Neizinho, e seu neto, Nei Theodoro Lopes Filho (Neinho). 

Em entrevista a “Rio Já”, o grande compositor, escritor e pensador das culturas africanas, autor de mais de 50 livros e 300 canções, fala sobre seu afastamento do Carnaval, sua volta à Sapucaí e sobre o futuro. Aos 83 anos, Nei Lopes entregou o texto de sua autobiografia, que será lançada em maio, e acredita que o convite do Paraíso do Tuiuti faz parte de uma série de acontecimentos ligados ao início de um novo ciclo em sua vida – quem sabe, também no Carnaval. A seguir, os principais momentos da conversa por vídeo, que aconteceu na segunda semana de janeiro.

Por que decidiu aceitar o convite do Paraíso do Tuiuti para desfilar no Carnaval de 2026?

Eu não pretendia aceitar o convite. O assunto é muito sagrado para nós, que somos partícipes do Ifá no Brasil, e é difícil para o leigo entender. Tinha preocupação com a possibilidade de tudo virar apenas uma grande festa, sem a informação correta. Depois de me esclarecer mais um pouco sobre o enredo, recorri a Ifá. Meu babalaô, verificou e disse que poderia ser uma coisa muito boa, inclusive para divulgação e esclarecimento sobre essas nossas teorias religiosas.

A partir dessa abertura, fomos visitar o barracão, vimos o que está sendo feito lá, ficamos maravilhados. Aí veio a vontade de participar, e aceitei. Estarei no desfile com meu filho, que é babalaô como eu, e com meu neto, que tem 26 anos e é certamente uma das maiores promessas dentro desse trabalho. Estamos muito animados. Vamos no carro que fecha o desfile, vestidos com os trajes das nossas obrigações, das cerimônias. Não quisemos fantasia, o carnavalesco aceitou. Estaremos alegres e felizes, porém mantendo a seriedade que o assunto requer. Isso eu acho fundamental.

O que o levou a ficar 31 anos longe dos desfiles?

Tenho uma história de escolas de samba, participei muito tempo, meu filho também, meu neto de certa forma participou, mas isso já estava nos cansando um pouco. As escolas foram se afastando de suas raízes, deixaram de ser espaços de convivência e passaram a ser um apêndice do Carnaval, quando deveria ser o contrário.

Mas esse convite fez o nosso olhar ficar mais claro, e tenho certeza de que vai ser um desfile muito bonito e muito esclarecedor. O enredo parte de um livro meu, em que expliquei o que é Ifá, e pelo que eu vi de material já construído fiquei animado. Muita coisa boa, pertinente ao que a gente vai apresentar. Vamos lá com toda força. Parei por um tempo para descansar e agora surgiu essa bela oportunidade de retomar. Eu dei ciência aos Acadêmicos do Salgueiro (onde Nei faz parte da Velha Guarda) de que vou participar dessa festa.

No começo de dezembro, uma postagem sua no Instagram falou de um ano muito difícil. Mas foi também um ano de muito trabalho, com muitos shows, um novo livro, homenagem especial na Flip (Festa Literária de Paraty). Foram muitas realizações ao longo de 2025.

De onde vem essa força?

Linda pergunta. Meu problema no ano passado foi que perdi minha companheira de 42 anos (Sonia Brilhante, que morreu em dezembro de 2025), e foi terrível, você pode imaginar. Mas a força veio exatamente das nossas rogações às grandes espiritualidades que nos cercam. A  gente foi se fortalecendo, inclusive porque ela era uma pessoa profundamente ligada à religião. Acredito que tenha havido uma mobilização em torno dela para restabelecer a minha força. No domingo passado eu fiz um show que foi uma maravilha (no Alfa Bar, Boulevard Olímpico, como convidado de André Diniz). Então eu acredito – não tenho certeza absoluta disso, porque não sou adivinho, sou apenas um filho dessa tradição de Ifá – que tenha muita coisa funcionando para que eu me restabeleça totalmente e retome a minha trajetória.

Isso já está acontecendo. O lançamento da minha autobiografia (na série “Decanos da arte popular”, da Mórula Editorial), no dia 8 de maio, vai ser a culminância. E a vida continua, felizes, trabalhando, a família toda ajudando. Estou muito esperançoso.

Em 2022, nas comemorações dos seus 80 anos, o senhor disse em algumas entrevistas que estava encerrando um ciclo. Diria que está iniciando um novo ciclo?

Acredito que sim. Estão me surgindo muitas ideias de coisas que ainda não fiz, e as possibilidades de fazê-las estão chegando. Estou realmente muito motivado para o que vai acontecer agora. Vou fazer 84 anos, fisicamente bem, calmo, tranquilo, e acredito que consiga expandir mais um pouco tudo o que eu já fiz até hoje.

E sobre carnaval? Como está vendo o atual momento, o senhor que há tantos anos é tão crítico dos rumos dessa festa? Tem algo no panorama atual que o anime em relação ao Carnaval e às escolas de samba?

No desfile do Tuiuti esse ano eu vejo uma possibilidade de virada. O que vai ser bom, e parece que já está sendo, é que o carnavalesco tem um envolvimento com o assunto, com o tema. Ele não está fazendo brincadeira, coisa simplesmente artística para se engrandecer. É isso que aconteceu muito até aqui. A vaidade, o “eu sou melhor do que você”. Isso é muito perigoso quando se trata de um assunto dessa magnificência. É uma nova era mesmo de carnavalescos, de artistas que estão estudando de verdade o assunto para poder falar dele.

Acredito e espero que esse enredo seja um grande marco de transformação. Porque Ifá a gente nem considera religião, é filosofia.  Coisas que vêm do antigo Egito. isso me emociona muito e me motiva muito. Então quem sabe esse não é o ano dessa virada? Eu gostaria muito que fosse assim.