MÚSICA: COM UKULELÊ, O HAVAÍ É AQUIMÚSICA:

A Orquestra da UFRJ é referência internacional

Carolina Rocha

O ensaio é na sala simples de uma escola municipal na Tijuca, Zona Norte do Rio. O silêncio na unidade escolar só é interrompido pelo delicado som dos ukuleles que entoam acordes de MPB em meio à ensolarada manhã de sábado. Se engana quem se deixa levar pela simplicidade do espaço: o grupo é a maior orquestra de ukuleles do país.

Criada em 2016, a Orquestra de Ukuleles da UFRJ é reconhecida internacionalmente. “O principal objetivo é criar novos arranjos de clássicos da música brasileira e internacional para o este instrumento, gravar e fazer apresentações no Rio e em outros lugares”, explicou o maestro Vinícius Vivas, que também é professor do Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAp UFRJ) e um dos mais notáveis ukulelistas do mundo.

O maestro transita entre dois universos: o acadêmico e o artístico. Ao mesmo tempo que participa de eventos ao redor do globo, Vivas dá aulas de ukulele e pesquisa sobre a utilização do instrumento na educação musical de crianças, adolescentes e adultos. Sua dissertação de mestrado foi a primeira sobre ukulele feita no Brasil. As habilidades de ensino logo levaram a convites para festivais renomados, como o Seoul International Aloha Ukulele Festival, na Coreia do Sul, e o Gaithersburg Ukufest nos Estados Unidos.

De formato e tamanho similares ao cavaquinho, o ukulele é um instrumento com influência portuguesa, mas originário do Havaí. Ele possui quatro cordas e é relativamente barato e fácil de aprender. “Eu comprei meu primeiro [ukulele] quando morava nos EUA em 2009. Aqui [no Brasil] eu não achava nessa época. Lembro que quis comprar porque eu vi um show e aparecia o Paul McCartney tocando ‘Something’ e tinha sido a versão mais bonita que eu já tinha escutado”, contou um dos membros da orquestra, o advogado Renan Rocha. O instrumento havaiano também já foi utilizado por outros grandes nomes da música, como Elvis Presley, Lulu Santos e Marisa Monte.

Fora do país, especialmente nos EUA, Japão, Canadá, Reino Unido e em parte da Europa, o ukulele é bastante popular. O maestro Vivas afirma que a percepção do público sobre o objeto compõe tanto pontos de vista que podem ser considerados bons quanto ruins: “Até mesmo fora do Brasil, o ukulele também é visto como um instrumento exótico, às vezes de brinquedo, ou que seria mais aplicável às crianças. Pode ser que ele não seja assim tão levado a sério como se espera de outros instrumentos. Isso tem um aspecto negativo, de desvalorizar, mas tem um aspecto positivo, porque ele combina com humor, coisas lúdicas e situações leves.”

Há seis anos na orquestra, tocar se tornou um momento terapêutico para Renan. De acordo com o advogado, integrar o grupo foi importante para que ele pudesse aprender as especificidades e, assim, poder relaxar ao som da melodia delicada do instrumento. “Eu tocava violão e tratava o ukulele como se fosse um violão pequenininho. Só depois que eu vim para a orquestra que eu comecei a aprender mais sobre os arranjos”, lembrou o advogado.

“Hoje em dia praticamente não toco violão. Antes eu tinha dois violões e um ukulele. Agora eu tenho sete ukuleles e um violão. Eu gosto de tocar, me sinto bem, é um instrumento que eu me identifiquei muito. Gosto dessa coisa dele ser portátil, de ser fácil de carregar, de tocar em qualquer lugar”, acrescentou Renan.

O movimento realizado pelo grupo é categorizado como inovador e pedagógico pela jornalista e ukulelista da orquestra Luciana Rocha. Ela afirma que está sendo criado um novo movimento musical preocupado em difundir a história e a versatilidade do ukulele. “A gente quer ocupar os espaços, que as pessoas conheçam e chamem a gente para estar em lugares que também são ocupados por violino, por violão, por cavaquinho…”, disse Luciana.

A orquestra é uma das iniciativas do projeto de extensão “Toque… E se toque!”. Os membros não precisam ter nenhum tipo de vínculo com a UFRJ. Para integrar o grupo, basta ter um conhecimento básico de ukulele e disponibilidade para ensaiar aos sábados de 10h às 13h na Escola Municipal Soares Pereira. Os interessados que ainda não tiverem a proficiência necessária, podem buscar capacitação em outras iniciativas do projeto, que também oferece aulas práticas e teóricas para alunos entre sete e 80 anos no Centro da Música Carioca.