Marcelo Macedo Soares
Pela primeira vez, o desfile das grandes escolas de samba do Rio passará pelo escrutínio de dois jurados posicionados um em frente ao outro. Das quatro cabines espalhadas pela avenida, duas serão espelhadas, como a aldeia carnavalesca está chamando a novidade. Assim, quesitos como comissão de frente e mestre-sala e porta-bandeira não precisarão mas se virar para um lado. A proposta, segundo a Liesa, é ampliar a visualização do espetáculo pelo público.
Para Marcella Gil, coordenadora do primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira do Salgueiro, Sidiclei e Marcella, a mudança representa uma quebra de paradigma. “Muda tudo, inclusive o manual centenário, sobre o casal. Agora efetivamente, o casal vai ter que virar, para uma apresentação 360°”, explica, avaliando a mudança como positiva.
Para o presidente da Liesa, Gabriel David, a expectativa é de um espetáculo ainda mais envolvente. “Com a cabine espelhada, mais pessoas vão poder acompanhar as apresentações de comissão de frente e casal de mestre-sala e porta-bandeira, por exemplo, que antes eram feitas apenas para um lado específico das arquibancadas.”
Na Viradouro, Rute Alves, primeira porta-bandeira e vencedora do Estandarte de Ouro 2025, admite que a mudança exigiu desconstrução de hábitos consolidados. “Em termos de dança, de apresentação para o público, o que for para melhorar sou muito favorável”, sublinha ela, 30 anos de pista, relatando que a mudança se deu com diálogo entre julgadores e julgados. “Foram bem cuidadosos conosco e asseguraram que não vão avaliar se a apresentação foi primeiro para um lado ou para o outro.”
A porta-bandeira também destaca que algumas mudanças já vinham acontecendo naturalmente nos desfiles. “O mestre-sala fica mais afastado, porque começaram a exigir ocupação de espaço”. Para ela, o cuidado principal será garantir que os momentos mais marcantes sejam apresentados para ambos os lados. “Se tem alguma cereja do bolo, ela vai ser feita para todos”.
Na comissão de frente da Beija-Flor, o coreógrafo Saulo Finelon afirma que a novidade não foi recebida com surpresa. Segundo ele, o debate já vinha sendo feito nos bastidores do Carnaval. “Não foi de um dia para o outro. Já vinha sendo conversado. Achei maravilhoso, melhor para o público, que vai aproveitar muito mais os desfiles”, elogia, revelando que a comissão de frente nilopolitana fará a mesma apresentação em todas as cabines.
Outra alteração fundamental eliminará equipamento tradicional do Carnaval: o carro de som. O sistema que vai estrear em 2026 dispensa a necessidade de uma estrutura física para cantores e músicos. É a mais radical mudança no som desde a inauguração da Passarela do Samba, em 1984. A nova estrutura, toda digital, além de reduzir drasticamente os cabos que se estendiam pelas bordas da pista, busca corrigir os eternos problemas no som dos desfiles. As falhas incessantes sempre atormentaram os sambistas e pareciam mazela incurável. Agora, busca-se solução com base na mais moderna tecnologia.
A mudança foi avaliada em diferentes etapas. A bateria da Beija-Flor de Nilópolis esteve no Sambódromo em julho para testes, e, em dezembro, os minidesfiles do Dia Nacional do Samba, na Cidade do Samba, serviram como prova para o novo sistema. As avaliações são muito positivas, mas o teste definitivo será no desfile.
“Trabalhamos muito para viabilizar uma nova estrutura, que agrade o público e permita uma competição ainda mais acirrada entre as escolas”, aponta Gabriel David. “Nosso objetivo é sempre realizar um espetáculo melhor”.








