CONCEIÇÃO EVARISTO BRILHA NA SAPUCAÍ

Enredo do Império Serrano, uma das maiores escritoras brasileiras se engaja no dia a dia da escola e o povo retribui: "A gente combinamos de amar você!"

Lucila Soares

Aos 79 anos, Conceição Evaristo está “se achando”. A mineira autora de oito livros, vencedora dos prêmios Jabuti e Juca Pato, eleita para a Academia Mineira de Letras em 2024, titular da Cátedra Olavo Setúbal da Universidade de São Paulo (USP) e homenageada em várias feiras literárias, teve sua obra escolhida como tema do enredo da Império Serrano para o Carnaval de 2026. Uma alegria que fez aflorar uma vocação adormecida por toda uma vida: a de foliã. Desde que aceitou o convite da Império, a escritora tornou-se presença assídua na quadra da escola de Madureira. Fez questão de ler pessoalmente a sinopse do enredo para os compositores e a comunidade, à qual se incorporou de corpo e alma. Pode ser feijoada, ensaio na quadra, ensaio na rua, lá está dona Conceição, animada e cercada de pessoas que levam livros para autografar (ou pedem autógrafo, sem livro mesmo), tomam a bênção e pedem para fazer selfies com ela. 

“Esse sentimento de se achar é muito fundamentado na minha história como escritora negra. Quando uma escola de samba, representando um espaço popular que é a alma do meu trabalho, faz um enredo tendo esse trabalho como tema, é como se eu estivesse fazendo um caminho de volta”, disse à “Rio Já”, no dia da Feijoada Imperial, um escaldante sábado de janeiro.

O carnavalesco da Império Serrano, Renato Esteves, concebeu o enredo “Ponciá Evaristo: flor do mulungu” como “uma escrevivência-enredo”. Nesse caminho, ele segue a grande premissa do trabalho de Conceição Evaristo: a escrita desenvolvida a partir de vivências e da fala cotidiana, escolha determinante para o refrão “a gente combinamos de não morrer”, título de um dos contos de “Olhos d´Água”.

“O Império Serrano é uma escola que tem as mulheres pretas na sua base. Tem sua própria escrevivência. Então a gente está usando esse conceito para desenvolver o desfile e, a partir daí, trazer as vivências de dona Conceição”, diz Renato.

O título refere-se a “Ponciá Vicêncio”, primeiro livro publicado por Conceição e dá à personagem o sobrenome da autora. Completa-se falando da flor do mulungu, símbolo da força coletiva das mulheres negras. Essa flor foi usada por Conceição no livro “Macabéa, flor de mulungu”, de 2023, para mudar o destino da criação de Clarice Lispector em “A hora da estrela”. Ao invés de morrer atropelada, a Macabéa recriada sobrevive, resiste e constrói uma vida nova.

O samba, de Hamilton Fofão, Dudu Senna, Leandro Maninho e Cláudio Russo, entre outros, passeia por personagens, temas e títulos de vários livros. Revisita, através de sua obra,  passagens da vida da própria Conceição, que foi criada na favela do Pindura Saia, em Belo Horizonte, trabalhou como doméstica, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde continuou sua batalha por uma vida melhor. Tornou-se professora, depois escritora. Através dela, o samba homenageia todas as mulheres pretas da Império Serrano na figura de dona Ivone Lara. E faz menção a Osvaldo Brito, companheiro de Conceição já falecido, na figura do Negro Estrela, a quem ela dedicou um poema.

Ao contrário de Conceição, que se define como “participante passiva” do Carnaval até pouco tempo atrás, Osvaldo era animado. Foi da Viradouro por muitos anos. Ela também gostava da Estácio, quando a escola ainda se chamava São Carlos, porque morava na área, dava aula em escola perto dali também, e sempre gostou do Salgueiro. Os dois iam sempre ver os carros na avenida. Depois vieram as primeiras homenagens – da Unidos da Abolição, depois a Beija-Flor, que teve o enredo “Empretecer o pensamento” e destacou Conceição em 2022 com o carro Escrevivência. Em 2024, participou do desfile da Portela, com o enredo “Um defeito de cor”, baseado no livro de Ana Maria Gonçalves. 

“Agora veio esse momento máximo, de ser tema do enredo. É tudo muito emocionante. Apresentar a sinopse, vestir a roupa das baianas e, principalmente, o público que me acolhe”, diz Conceição, contando que no caminho até a entrevista foi parada inúmeras vezes.

Renato Esteves entusiasmou-se desde o primeiro momento com a ideia do enredo e vê agora esse entusiasmo multiplicar-se pela alegria dela. Lembra que a primeira conversa entre os dois, depois que a escritora aceitou o convite da Império Serrano, durou seis horas. Ele já tinha algumas ideias, lera vários livros, mas preferiu só escutar. “Cada oportunidade de ouvir dona Conceição é uma aula”, diz. “Ela escreve sobre coisas que a gente viveu, ou conhece alguém que viveu, ou ouviu alguém contar. Eu me encontrei muito na literatura dela, é literatura mas também é memória social.”

É essa percepção que está por trás da enorme receptividade que Conceição teve desde o primeiro encontro com a escola. A comunidade a abraçou, e quem não conhecia começou a se interessar em conhecer a obra dela. Renato lembra que, no dia da leitura da sinopse, uma senhora do departamento feminino disse que estava indo à Bienal do Livro comprar um livro para dar à filha.

O carnavalesco se comove ao contar que ela lhe disse que não podia prometer sambar, só cantar muito. 

“Fazer enredo sobre uma pessoa viva é especial, pode consultar, ouvir, sentir. Mas ela é um diferencial. Dona Conceição fala com brilho nos olhos, é sol, ilumina tudo o que está em volta dela. E tem aquele amor de mãe, de avó, que vai te abraçando”, diz Renato, que tem 38 anos e poderia mesmo ser neto de Conceição Evaristo.