Luisa Prochnik
Enquanto o debate entre a relação direta da crise climática com a saúde pública transborda os limites das cidades e ganha o mundo, sendo tema de uma mesa na COP pela primeira vez, em novembro deste ano, em Belém, a cidade do Rio de Janeiro é vanguarda nesse assunto. Dias antes do evento principal – o encontro entre signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, no Pará – mais de 300 prefeitos de cidades do mundo todo se reuniram no Fórum Local de Líderes Globais. De limite bem definido e com uma rotina menos burocratizada, a esfera municipal é responsável por implementar as principais inovações e tomadas de decisão relacionadas a temas sensíveis e urgentes. E a cidade do Rio de Janeiro comprova essa tese ao vencer o Local Leaders Awards 2025 e tornar-se referência para a esfera federal montar um plano de ação. O prêmio da Bloomberg Philanthropies reconhece políticas locais eficazes e inovadoras de enfrentamento às mudanças climáticas e a cidade conquistou a premiação na categoria “Infraestrutura mais segura para um mundo em mudança” com o Protocolo de Enfrentamento ao Calor Extremo.
– A tomada de decisão na cidade, a mudança da legislação, das regras, é muito mais simples. Uma tomada de decisão no nível de governos de estado e de países é muito mais complexa. Então, geralmente, as grandes inovações em clima, em tudo, acontecem na cidade – explica Daniel Soranz, ao explicar e enaltecer o pioneirismo da capital carioca, em que ele atua como secretário de saúde, tendo sido um dos protagonistas para a elaboração do Protocolo.
O documento, oficializado e publicado em 2024, ganhou ainda mais destaque e urgência um ano antes, após a tragédia ocorrida no show da cantora Taylor Swift. A fã Ana Benevides morreu em consequência de temperaturas elevadas, segundo o laudo, “exaustão térmica por exposição difusa ao calor”. No dia do óbito, o índice de calor do município ficou acima de 44°C por oito horas. Além desse fato que chocou a todos e ganhou manchetes pelo mundo, segundo Daniel Soranz já havia dados suficientes para sustentar a necessidade de se pensar em ações integradas em dias muito quentes.
– Desde 2012, a gente pegou os dados que tinha de prontuário eletrônico e de mortalidade, do sistema de informação de mortalidade e cruzamos com os dados de temperatura, de clima, para poder verificar o que acontecia. A gente consegue demonstrar que em dias de calor excessivo, o risco de morrer, de hipertensão, diabetes, outras doenças crônicas, de idosos irem à óbito é muito maior do que nos dias em que não se tem temperaturas extremas – conclui Soranz.
O Protocolo de Enfrentamento ao Calor Extremo foi elaborado a várias mãos, com as secretarias municipais de Saúde e de Meio Ambiente e Clima e o Centro de Operações da Prefeitura. Pensado de forma integrada, as mais de 200 ações propostas seguem essa mesma premissa: um trabalho em conjunto, reunindo setores diversos. São cinco os níveis de calor adotados pela Prefeitura do Rio de Janeiro, definidos a partir da combinação da temperatura média da cidade e da umidade relativa do ar, ou seja, do Índice de Calor. Além disso, foram considerados a previsão do tempo, literatura científica e o histórico de atendimentos de emergência.
Às portas do início oficial do verão, o modelo básico é, claro, manter-se hidratado. E não apenas com a quantidade de água em dia.
– E aí o que eu gosto de desmistificar é que a hidratação não se baseia só em água. Uma pessoa pode beber 5 litros de água, mas não reter essa água dentro das células. Então, uma boa alimentação variada é o que vai fazer essa água entrar dentro da célula. E, aí, uma ideia bem sustentável e bem acessível é o usufruir das frutas que são mais ricas em água: melancia, melão, laranja – explica Tamara Borges, nutricionista clínica.
Segundo o Protocolo, há grupos mais sensíveis ao impacto do calor, como crianças, população de rua, gestantes e lactantes e os idosos. Estes são os que exigem o maior cuidado.
– Conseguimos demonstrar que idosos, independentemente da classe social, têm um risco relativo de morrer de quase 50 vezes maior do que em dias em que não tem calor extremo. É claro que se eu pego uma pessoa mais vulnerável e somo, um idoso em situação de rua, o cenário é muito mais grave e precisa de muito mais atenção – pontua o secretário de Saúde.
– O idoso já tem uma tendência de desidratação e, muitas vezes, a perda do paladar com a idade vai deixando ele com menos interesse, menos motivação própria para consumo de água e de alimentos. Então, a gente tem que trazer externamente a pessoa que está ali envolvida no cuidado do idoso para que ela fique mais atenta e sempre oferecer – complementa Tamara.
Seja você, leitor, incluído em grupo mais vulnerável ou não, fique atento aos efeitos que o calor pode causar em seu corpo, antes que a situação fique extrema, demandando hospital.
– O primeiro sinal é dor de cabeça. Se começar, faz uma retrospectiva se você teve uma boa ingestão de líquidos, se você se alimentou bem naquele dia. E, aí, os outros sintomas são: a boca mais seca, os olhos ardendo mais – exemplifica Tamara, e alerta: o inchaço também é um sinal, quando o corpo não hidratado acumula água diante do perigo iminente.
Em breve, teremos o segundo verão com o Protocolo de Enfrentamento ao Calor Extremo em funcionamento.
– O plano para o futuro é que se possa acompanhar os dados e fazer ajustes necessários de acordo com as evidências científicas. Quando se implementa o protocolo, precisa de uns dois ou três momentos de calor extremo, para poder verificar se, de fato, o documento está calibrado da maneira correta – avalia Daniel Soranz.








