Luisa Prochnik
Prestes a se tornar quarentão, o bloco Suvaco do Cristo anuncia seu último desfile com muita fantasia, purpurina e picardia. A despedida é em grande estilo: o bloco mais pop do Carnaval carioca sai das ruas para a telona como personagem principal não de um, mas de dois documentários. Quando se fala no Suvaco do Cristo, tudo é grandioso e impactante. “O Suvaco sai da rua para entrar na história”, exalta, João Avelleira, fundador e presidente, inspirando-se na frase icônica de Getúlio Vargas em sua carta de despedida. “No primeiro momento, pensamos em fazer um documentário apenas sobre os 40 anos do Suvaco. Mas, conversando e bebendo, percebemos que precisávamos fazer, na verdade, dois filmes”, explica Augusto Casé, da Casé Filmes.
Assim como Casé, dedicado ao mundo audiovisual, João também tem sua profissão: é médico dermatologista. Mas, quando se encontram debaixo do sovaco do Cristo, são dois animados, incansáveis e dedicados foliões. A dupla, além de investir em um produto audiovisual que conte as quatro décadas de história do bloco — com acervo completo e inédito a ser compartilhado — tem outra missão: mostrar a importância na retomada do Carnaval de rua no Rio de Janeiro. “A gente não tinha muita intimidade com o samba de raiz; nossos primeiros mestres de bateria nem sabiam sambar direito. Estávamos focados na alegria de ganhar a rua depois de tanto tempo de ditadura”, relembra João. “Ganhar a rua e brincar com todo mundo”.
O Suvaco do Cristo desfilou pela primeira vez em 1986, um ano após o retorno da democracia ao Brasil e dos blocos Simpatia é Quase Amor e Barbas ganharem o asfalto. Naquele contexto histórico, a simples possibilidade de estar nas ruas festejando já era motivo de júbilo. “O Carnaval traz em sua essência a liberdade e a vontade de ocupar a cidade que me encanta. Através do Suvaco do Cristo, falamos de um país”, defende um dos roteiristas do documentário sobre a retomada, Leonardo Bruno. “A trajetória do Suvaco, a resiliência de seus realizadores, a permanente batalha para domar a caretice e a aposta na alegria despojada, solar e carioca são predicados que precisam ser exaltados em nome da construção de uma cidade melhor”, completa Aydano André Motta, o outro roteirista.
“O bloco apareceu na hora certa. Fortaleceu o Carnaval, manteve a tradição da transgressão, da ironia e da picardia”, resume João, que sugere pesquisar o histórico dos sambas do Suvaco para confirmar.
Nem precisa ir tão longe: o próprio nome do bloco já diz muito. Na delegacia, no segundo ano de existência, João foi informado da reclamação da Cúria – a agremiação se apropriara de uma parte do corpo do Cristo para um evento pagão. “Tentei alegar com certa propriedade: “Pô, delegado, mas em Niterói, ali do lado, tem o Saco de São Francisco, que acho pior do que Suvaco do Cristo!”, recorda, entre gargalhadas. “Era uma questão geográfica, nada contra a Igreja. O nome sintetiza a irreverência do bloco”.
Para o último desfile, a organização reforça que o público venha fantasiado, marca registrada do Suvaco. O hábito é seguido rigorosamente pelos fundadores. “Nunca sei com que fantasia vou encontrar o João. E ele nunca soube da minha, a não ser quando eu ia para a casa dele com a roupa na sacolinha. Entrava como Augusto Casé e saía do banheiro vestido de Penélope Charmosa, entendeu?”, diverte-se o produtor.
No ano em que morreu Elizabeth II, a mulher de João e seu grupo de amigas saíram em peso com uma paleta de cores em homenagem à monarca. E o fundador? Foi de rainha também. Essa possibilidade de transgredir, assumir outros papéis e estampar críticas sociais é tema obrigatório para o documentário. “Queremos registrar a preparação, essa transformação do ser humano comum em super-herói”, antecipa Casé, que lista ainda outras metas de filmagem, como a preparação da porta-bandeira, a concentração e a dispersão. “Teremos 40 baianas na avenida e uma bateria maior para fazer um desfile mais poderoso. Cenograficamente, vamos colorir o Jardim Botânico com bandeirões e canhões de confete”.
A expectativa é alta e o trabalho de roteiro está a todo vapor. “Fizemos entrevistas com os fundadores, conversamos com a diretora, Paula Fiuza, e construímos o argumento que ultrapassa as fronteiras do bloco para falar da eterna disputa da cidade: o direito à alegria e a luta pela liberdade”, resume Aydano.
Os dois roteiristas têm longa história com o Carnaval. São especialistas no que acontece dentro e fora da Sapucaí. As histórias que vão contar e encantar partem também de uma perspectiva carnavalesca, mas, agora, dos blocos nas ruas. “O Rio tem, na verdade, dois carnavais que acontecem simultaneamente. Blocos e escolas de samba não têm nada a ver um com o outro nos preceitos ou dinâmicas. E me fascina contar a história desta cidade mágica, que já seria única com um Carnaval, mas tem dois”, festeja Aydano.
Se tudo está tão incrível, por que o Suvaco vai parar? “Sinto que é missão cumprida”, responde João. “Uma linda história que termina no auge. É emocionante pensar nessas quatro décadas de carnavais inesquecíveis!”, ressalta Leonardo Bruno.
“O documentário vai falar exatamente disso: que não tem fim. O legado prossegue. O Suvaco não vai terminar nunca”, adiciona Casé, referindo-se ao efervescente Carnaval de rua atual. “Algo tão forte, espontâneo e legítimo como o Suvaco não acaba. Viverá para sempre na memória de quem ama o melhor Rio de Janeiro possível. Tem um ensinamento yorubá que prega que quem é lembrado não morre. Será o caso do Suvaco”.








