Jan Theophilo
‘Quem tem medo de ir ao banheiro não almoça nem sai para jantar”. A frase, adaptada para permitir a leitura nesse horário, está na ponta da língua do presidente da Acadêmicos de Niterói, Wallace Palhares, para ser disparada quando alguém tenta patrulhá-lo, sobre a escolha do presidente Lula como enredo para o Carnaval. Decisão que, nesse país de eternos Fla-Flus, gerou controvérsia. “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” se debruça sobre a história do presidente e o samba, como convém, mergulha na exaltação: “Quanto custa a fome, quanto importa a vida/ Nosso sobrenome é Brasil da Silva/ Vale uma nação, vale um grande enredo/ Em Niterói o amor venceu o medo”.
Em outro trecho, não esquece a polarização: “Sem temer tarifas e sanções/ Assim que se firma a soberania/ Sem mitos falsos, sem anistia”. Para deixar a extrema-direita ainda mais PT da vida, a escola será a primeira a entrar na Sapucaí domingo, 15 de fevereiro, e o desfile passará na TV Globo após o Fantástico. O óbvio alcance da transmissão que enaltece o petista levou parlamentares de oposição a acusar a agremiação de “crime eleitoral”, por ter recebido R$ 4 milhões em verbas públicas da Prefeitura de Niterói.
“Você pode até não gostar do Lula, mas é inegável a história de superação dele. Uma criança pobre do interior de Pernambuco que se elege três vezes presidente”, sustenta Wallace. A azul e branco niteroiense promete desfile irreverente, brincando com questões contemporâneas. Em 2019, quando ainda se chamava Acadêmicos do Sossego, a escola apresentou o então prefeito do Rio Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal, caracterizado como o Coisa-Ruim. “Queremos falar de luta contra a desigualdade. Quem me criticar por isso estará me fazendo um favor”, provoca Wallace.
Desde que o samba é samba é assim. “Zumbi entrou na avenida antes de chegar aos livros didáticos”, brinca o pesquisador de história do Rio Dilson Gomes. “Num país de maioria preta tratada com forte discriminação, qualquer enredo que homenageie esta cultura, torna-se político na mesma hora”, pondera. O pesquisador lembra que embora sempre tenha havido restrições e imposições políticas, desde os primórdios os sambas-enredo falam das questões da negritude. “Em 1948 o Império Serrano desfilou com samba-enredo, composto por Altamir Maia, exaltando o poeta negro baiano Castro Alves, repleto de referências ao poema ‘Navio Negreiro’”.
A liberdade foi interditada pela repressão militar em 1964. Vários enredos acabaram censurados e os ensaios passaram a ser fiscalizados pelo Dops, como relata Martinho da Vila em seu livro “Kizombas, Andanças e Festanças”. Em 1974 a Vila falou dos Carajás e terminou rebaixada em episódio até hoje controverso. Pesquisadores afirmam que a escola foi vítima de forte jogo político e a azul e branco, mais frágil e menos “alinhada” ao sistema, ficou em último.
“A política faz parte da vida social, e se você olhar para a origem das escolas de samba, tanto no pós-Abolição como nos anos 1930, vai ver que elas estão fazendo política desde que surgiram, buscando melhorias para os espaços periféricos onde estão inseridas”, aponta o pesquisador de Carnaval Mauro Cordeiro. “Em 1960, por exemplo, o Salgueiro foi muito importante na valorização da história afro-brasileira com o enredo ‘Quilombo dos Palmares’ que exaltava Zumbi”.
Em 1985, com o fim da ditadura, a Caprichosos de Pilares defendeu o irreverente “E por falar em saudade…”, criado por Luiz Fernando Reis, cujo samba dizia “(Quero votar!) Diretamente, o povo escolhia o presidente (oba!)/ Se comia mais feijão/ Vovó botava a poupança no colchão/ Hoje está tudo mudado/ Tem muita gente no lugar errado…”. No ano seguinte o Império Serrano entrou na avenida com um pedido: “Me dá, me dá/ Me dá o que é meu/ Foram vinte anos que alguém comeu”.
Em 2018, o Paraíso do Tuiuti, trouxe um “presidente vampiro” de destaque, referência ao então presidente Michel Temer (MDB), e uma ala de manifestantes fantoches. Ficou em segundo. A campeã foi a Beija-Flor com discurso crítico, inspirado nos desdobramentos da Operação Lava Jato, visto por muitos como conservador, em especial pela alegoria que mostrava ratos subindo pelo edifício-sede da Petrobras.
Para Cordeiro, o desfile do Grupo Especial tem sido o principal espaço na sociedade brasileira para a denúncia do racismo religioso. Um exemplo é a Mangueira, que em 2019 ganhou cantando “Brasil, chegou a vez de ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês”, e no ano seguinte, apresentou um menino negro na cruz como o “Jesus da gente”. “E não se trata de reduzir a direita ou esquerda”, explica Cordeiro. “As escolas são o resultado do caldo de culturas da experiência negra. E obviamente isso é muito crítico em relação à ordem estabelecida, feita para subjugá-las”.
E só para acalmar o pessoal furibundo com a homenagem a Lula, não será a primeira vez que a Sapucaí reverencia o presidente. Em 2003, a Beija-Flor foi campeã com enredo sobre a luta contra a fome, e apresentou imensa escultura do petista, então recém-eleito pela primeira vez. Mas a batalha agora é bem mais difícil do que vencer a disputa presidencial: a sobrevivência, na elite da folia, da escola que sobe da Série Ouro. Dos 24 desfiles realizados neste século, em 16 deu-se o vaivém – o grêmio recém-chegado voltou à segunda divisão. Somente cinco sobreviveram por mais de um Carnaval (em três, não houve rebaixamento, por viradas de mesas variadas). Ou seja: a luta continua!








