Caroline Rocha
Se casamentos brasileiros duram, em média, 14 anos, e a maioria dos trabalhadores não completa dois no mesmo emprego, o mundo do samba abriga um casal que desafia as estatísticas. Em 2026, Claudinho e Selminha Sorriso, mestre-sala e porta-bandeira da Beija-Flor de Nilópolis, completam três décadas defendendo juntos o mesmo pavilhão — mais tempo do que a maioria dos vínculos afetivos e profissionais, dentro e fora da Avenida. O segredo, garantem, não está apenas na técnica, mas numa cumplicidade que atravessa o profissional, o pessoal e o sagrado. “Costumo brincar que fomos uma escolha dos deuses do samba”, diz Selminha. “Somos diferentes, mas nos amamos, nos respeitamos e torcemos um pelo outro. Entendemos que só somos fortes juntos. Um cuida do outro.”
Referência no Carnaval, a dupla já conquistou dez títulos carregando o pavilhão da Soberana de Nilópolis e é o casal mais longevo em atividade no exercício do ofício de mestre-sala e porta-bandeira. Aliás, uma trincheira da tradição carnavalesca: a função nasceu da evolução do porta-estandarte dos ranchos e blocos carnavalescos do século 19. Da mistura — elemento essencial da cultura brasileira —, entre o riscado da capoeira e a influência europeia da dança de salão, surgiu, em 1938, oficialmente, um quesito a ser julgado.
Outro ícone, Vilma do Nascimento, o Cisne da Passarela, que fez história na Portela, definiu o quesito com poesia. “É como o voleio de um beija-flor em torno da rosa. Ele se aproxima, toca e sai. Volta, beija e se afasta. Nunca as ações serão idênticas. E a rosa, ao contrário do que se pensa, não permanece passiva. Ela dança”, descreveu em entrevista a José Carlos Rego.
Diferentemente dos demais quesitos, que contam com a atuação de dezenas e às vezes milhares de pessoas, o peso da nota de mestre-sala e porta-bandeira repousa sobre apenas dois seres humanos. A maioria das agremiações desfila com três casais, mas apenas um é avaliado. “É um quesito solitário. Fim de ano, então, quando os setores da agremiação fazem as confraternizações, nós unimos os três casais de mestre-sala e porta-bandeira e os ensaiadores e, mesmo assim, é um contingente muito pequeno”, comenta Rute Alves, porta-bandeira há 28 anos, sendo 17 ao lado de Julinho, seu atual mestre-sala na Unidos do Viradouro.
Rute revela, no entanto, preferir essa “solidão” pela liberdade que ela permite. “Não tem como não ficar tensa no dia do desfile. A adrenalina existe, mas eu associo isso à responsabilidade e ao respeito pelo que faço, não à pressão. São nove da manhã e eu e Julinho já ensaiamos. Eu só dependo dele, e ele de mim. Solitário, sim. Pressão por isso? Nunca”.
Durante o desfile, são avaliadas a indumentária e a dança apresentadas diante das cabines de jurados, que atribuem notas de 9 a 10. Quando o quesito surgiu, o regulamento considerava apenas a fantasia; somente em 1958 a dança passou a ser avaliada. Dos tecidos de lamê e paetês aos cristais e plumas de faisão; do posicionamento à frente da bateria para depois da comissão de frente; e de um bailado mais cadenciado para movimentos mais rápidos, alinhados às baterias aceleradas, hoje o quesito analisa “a harmonia do par, a correção dos movimentos, a indumentária e o entrosamento”, segundo a Liesa.
“Talvez seja o quesito que mais tende a ficar na linha tênue. Até onde pode evoluir? Até onde não pode? O que se pode fazer? Os jurados querem ver algo novo, mas ao mesmo tempo a gente tem que ser tradicional”, questiona Rute.
Após quase 90 anos, o modelo segue gerando debates sobre como equilibrar tradição e contemporaneidade, técnica e emoção. Inserida nesse contexto, a Liesa anunciou aprimoramentos para o Rio Carnaval 2026, como cabines espelhadas e um corpo de jurados mais diverso e plural.
Para Selminha, as transformações do quesito acompanham as mudanças do mundo, como em qualquer outra área. “A mudança é inevitável, mas peço muito aos orixás que o fundamento da nossa dança permaneça, para que não percamos nossa identidade cultural”, diz a porta-bandeira, que afirma se sentir como “uma guerreira ancestral” ao atravessar os 800 metros da Passarela do Samba, da concentração, na Presidente Vargas, à Praça da Apoteose.
“Pela primeira vez na minha história como porta-bandeira, vi tantos jurados pretos e populares. Isso é muito significativo”, elogia Rute. “Nossa dança é popular, ancestral, vem da senzala, da capoeira. Avalio essas mudanças como muito positivas, mas também gostaria que o regulamento fosse mais detalhado, para que nada fique subentendido.”
Não é para menos. Em um país marcado pela opressão histórica das mulheres, o casal de mestre-sala e porta-bandeira é uma das raras esferas sociais em que elas ocupam o protagonismo reconhecido. São elas que carregam o símbolo maior da escola de samba: o pavilhão.
O dossiê Matrizes do Samba, desenvolvido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), detalha que, nos primeiros desfiles, a bandeira também era um quesito, avaliado “pela qualidade de sua concepção e pela capacidade do grupo em protegê-la e apresentá-la”. Mas seu significado foi além do aspecto funcional: “A bandeira, suas cores e os símbolos bordados no tecido são um forte elemento de identidade das comunidades de sambistas no Rio”.
“Durante muito tempo, a mulher foi subserviente e submissa”, reflete Selminha. “Exercer o papel daquela que carrega, conduz e apresenta o símbolo mais sagrado, que representa coletividade, passado, presente, futuro e resistência cultural, me alegra muito. Demorei a entender esse lugar. Hoje, com mais conhecimento, compreendo e agradeço por representar tantas mulheres em um papel tão importante para a história”.








