BAR DO MOMO, O REI DOS BOTEQUINS CARIOCAS

Toninho e Filó, no balcão desse botequim na Muda, ícone da gastronomia carioca

Bruno Agostini

O Bar do Momo desfila na passarela que é o Rio de Janeiro com desenvoltura. É como uma Sapucaí da boemia, por ele passam cariocas com frequência e devoção, e turistas, com curiosidade e vontade de comer essa cidade deliciosa de São Sebastião. Nos últimos 15 anos conseguiu se posicionar como referência no assunto botequim, trabalhando entre a tradição e a inovação.

Seu enredo conta a história da gastronomia carioca como poucos lugares. Tem bolinho de arroz, que representa a cozinha caseira e familiar. Tem feijoada, às sextas, sábados e domingos, simbolizando o congraçamento de todos os povos que formam o Brasil, o encontro, a celebração.

O bar nasceu nos anos 1970, na Rua Espírito Santo Cardoso, quase esquina com a Rua Uruguai. Ganhou esse nome porque foi fundado por um personagem lendário do carnaval carioca: Abraão Haddad, que foi Rei Momo entre os anos de 1958 e 1971 – nos tempos em que a escolha do personagem que abre a folia no Rio de Janeiro, mantendo a chave da cidade pelos dias de festa, ainda era feita com base não só no carisma e simpatia, mas também pelo peso avantajado.

Quando deixou seu posto na ilustre monarquia do Carnaval, resolveu abrir um botequim. E assim surgiu o Bar do Momo, em 1972.

– A gente não conheceu o Rei Momo. Antes de passar para o meu pai, em 1986, ele teve outros donos. Eu sempre estive lá com ele. Lógico, que no início não trabalhando, porque eu tinha seis anos, mas acompanhava, ficava por perto, conhecia as pessoas – diz Antônio Carlos Laffargue, ou simplesmente o Toninho do Momo (Instagram @toninhomomo), filho do Tonhão.

Toninho se destacou de tal forma como cozinheiro com as suas criações à frente da casa que chamou a atenção até mesmo do Zeca Pagodinho: ele é o chef que cuidar do bar que tem a marca do sambista, que serve uma das feijoadas mais concorridas da cidade em datas como o Carnaval e o Dia de São Jorge, o que já virou uma tradição no Rio.

– Eu gostava de ir cedo, no domingo, porque não tinha aula, para comer a massa de pastel caseira, ele fazia uns pasteizinhos com ela. A gente saía de casa às 5h. Fui criado ali, com a galera do comércio. Foi uma escola para mim. Com 10, 11 anos de idade, eu comecei a atender no balcão. Servia uma manjubinha, uma carne seca, e um aipim. Aí, eu ficava ali, para estar próximo do meu pai, e ainda ganhava um dinheirinho. Com 14 eu comecei a pegar mais firme nisso. Com o passar do tempo, em 1996, eu comecei a trabalhar mais pesado, e em 1999, com 19 anos, eu comecei a ficar direto no Momo, de domingo a domingo. Aí, eu comecei a ir para a cozinha nessa época. Depois, com uns 21 anos eu comecei a entrar na cozinha de forma mais intensa, e parti para dentro, para fazer de tudo, e também atendia no balcão, comecei a botar mesas do lado de fora, para ganhar mais clientela, e o bar começou a crescer. No início meu pai estranhava, mas depois ele começou a gostar daquilo que eu estava fazendo, até chegar nos dias de hoje. Há sete anos atrás eu recebi o convite para montar a cozinha do Bar do Zeca, eu junto com o Bruno Magalhães e o Bruno Vaz, a gente se dedicou lá no início, e eu acabou que eu fiquei sendo o chef das cozinhas, e já são sete anos de trabalho lá com a equipe do Bar do Zeca, e estou muito feliz com isso – diz Toninho.

A comida é boa de verdade. Seu farol de milha é a consagração de um clássico dos botequins, a carne assada, que é dessa forma é elevada a outro patamar, como se fosse um destaque de alegoria imponente, ao receber um molho denso e saboroso, realmente especial, e queijo e um ovo frito por cima – além de ser recheada de linguiça, como de hábito.

Seus sanduíches são pura fantasia do que é bom, melhorado. Há burgers e hot dogs, há de ser universal o cardápio de delícias. O menu tem uma seção inteira, chamada Sandubas do Rei, com pelo menos nove criações da casa.

Em seu menu, que tem muita tradição, também existe espaço para a inventividade  em criações com nomes que evocam a poesia popular, como “Atolei no Momo”, “Eu só quero ser feliz” e “O Bêbado e o Equilibrista”, que presta homenagem a dois personagens da Muda, esse pequeno e nobre recorte da Tijuca, onde está o Momo: Aldir Blanc e Moacyr Luz, parceiros musicais que moravam no mesmo prédio, bem perto dali.

“O bêbado e o equilibrista é um sanduíche de pernil com desfiado com maionese de alho e picles de carambola, no pão francês, servido na doce companhia da batida de maracujá da casa, e de uma geleia de pimenta – tudo bem harmonizado.

“Entre o torresmo e a moela” é uma composição sofisticada, que traz os dois elementos que a batizam tendo como elemento de ligação um purê de batata-doce.

A comissão de frente do Momo atende pelo nome de Filó, e é ela quem lidera o serviço. Conhece os clientes, e os clientes a conhecem. Ela baila, evoluindo no serviço tal passista das melhores. Para quem está tenso, ela pode servir uma batida de maracujá com doces palavras, e para os sedentos envia uma ampola gelada para aplacar o calor.

O povo sabe que o segredo de um bar fora-de-série é o dono. Os donos. Ou, a família do dono, como é o caso do Momo, o que lhe faz se tornar uma birosca ainda mais exuberante. Um grande botequim tem que ter história para contar, tem que ser acolhedor e tratar das pessoas que chegam até ele com afeto e atenção. Nota 10, diriam os jurados no quesito evolução.

Porque o Momo é um bar que não se conforma com o sucesso, e segue a vida cantando que a felicidade reside ali: “Quer ser feliz, vem pro Momo”, diz o bordão da casa, que poderia até ser refrão de um samba-enredo, que poderia louvar o boteco em si, a Muda, como um todo, e o Rio, de maneira geral.

Inserido na Tijuca, bairro que é reduto do samba, da boemia e da carioquice mais autêntica, o Momo tem contexto, e versa sobre isso, como feitiço um da Vila. Mangueirenses, tijucanos, portelenses, imperianos, salgueirenses e todo tipo de folião presta reverência a esse ícone que é um poço de felicidade.

O Momo que o batiza e abençoa a birosca não é apenas simbólico — ele é literal. O nome do bar nasce diretamente dessa identidade: Momo, o homem da fartura, do riso largo e da mesa cheia, que transfere para o balcão a mesma lógica do Carnaval. O Bar do Momo surge como extensão dessa figura: comida abundante, clima popular, espírito de exagero bem-humorado — tudo coerente com o personagem que ele encarnava. A herança ficou.

É um bar que tem biografia. Vida real. Não é marketing retrospectivo nem fantasia temática. O bar carrega o nome porque o fundador carregava o título — e, sobretudo, o espírito momesco: celebrar o excesso, o prazer de comer bem e a alegria sem cerimônia.

Só sei que só o Momo é assim.

SERVIÇO
Bar do Momo: Rua General Espírito Santo Cardoso, 50A – Loja A – Tijuca. Tel.: (21) 2148-2874. Instagram: @bardomomoficial