Bruno Agostini
Carnaval e botequim são duas instituições cariocas que se relacionam intimamente. O samba, muitas vezes, nasce na mesa do bar, e quase sempre, o que se escuta e o que se canta nesses lugares é coisa de bamba. Esse é o Rio que vive entre o balcão e o refrão bem versado, o petisco simples, o prato feito, o chope gelado e a celebração da boemia, da folia e da alegria. É copo suado, é todo mundo cantando junto e alto. Tantos e tantos blocos nasceram e continuam nascendo ao redor dos amigos que frequentam o bar da esquina. Há muito batuque na cozinha, as feijoadas das escolas, e os delírios da baixa gastronomia, como cantou Moacyr Luz, são muitos:
“Azeite no jiló / Pimenta fresca no bobó / A abrideira no balcão de mármore / Dentro do pirão, uma corvina, um azulão / E a feijoada desenhando o sábado / Cozido à brasileira, no domingo e quarta-feira / E também tem um camarão na abóbora / Depois de apaixonar pela batida do lugar: A melhor! / Garçom de borboleta / Escrito a giz na tabuleta: Mocotó! / Frango com quiabo um cabrito temperado / É de se ajoelhar / No caldo do ensopado um lagarto fatiado / É de fazer chorar / Belmontes corações, no Pirajá das ilusões / Lamas e Luiz / Adônis dos fiéis / Engibaiado de pastéis / Sou feliz! /Deixa o cardápio aí, diz o que eu vou pedir / Peito com coradas caprichadas malaguetas / Vem servir / Deixa o cardápio aí, diz o que eu vou pedir / Virado a paulista, uma isca a lisboeta / Vem servir / Deixa o cardápio aí, diz o que eu vou pedir / Bife mal passado com dois ovos na manteiga / Vem servir / Deixa o cardápio aí, diz o que eu vou pedir / Dúzias de sardinhas, caranguejo, caranguejas / Vem servir / Deixa o cardápio aí, diz o que eu vou pedir / Pra finalizar, aceito a dica do Jaguar / Vou dormir”
Haja conversa de botequim. É aquela coisa, né? Na minha casa todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba!
Reunimos alguns lugares que celebram o samba o ano inteiro, e ainda mais no Carnaval. Evoé!
Bar do Zeca Pagodinho
O sambista gosta tanto de botequim que acabou abrindo o seu, hoje com lojas no Rio e em São Paulo. “O bar mais bamba da cidade”, como se define, tem uma programação musical intensa o ano inteiro, e o carnaval é o ápice disso, junto com o Dia de São Jorge. Nos dois casos há eventos que reúnem samba e gastronomia carioca, mais precisamente a feijoada completa, com rabo, orelha, pé e língua bovina, como se deve. O responsável por servir centenas de porções é uma das maiores referências em botequim e feijoada: Zeca – que não é bobo nem nada – convocou o bamba Toninho do Momo para desenvolver o menu e as cozinhas de sua rede. A agenda de shows está bem animada em fevereiro na unidade do Vogue Square, na Barra, que deu origem às demais. Dia 17 (terça de carnaval), por exemplo, tem Marquinho Art’Samba (intérprete Unidos da Tijuca), no dia 19 é a vez de Xande de Pilares e, no domingo seguinte, depois do Desfile das Campeãs, quem sobe ao palco é Leandro Sapucahy. A feijoada, posso atestar, é das melhores do Rio. O bufê é servido em todas as unidades aos sábados e domingos (e na filial do Flamengo, também às sextas-feiras). Mais informações no Instagram @bardozecapagodinho
Armazém Senado / Labuta Bar
A rua do Senado recebe, todos os fins de semana, uma das rodas de samba mais animadas do Rio. Gratuita, reúne democraticamente cariocas de todos os lugares, e turistas dos mais diversos estados do país, e muitos estrangeiros. O veterano Armazém Senado, com suas paredes históricas de quem abriu as portas em 1907, nessa mesma esquina do Centro, tem samba às sextas (de 17h às 21h), sábados (de 14h às 18h30) e domingos (de 13h às 17h). No Instagram @armazem.senado você encontra mais informações sobre a programação.
Manga Bar
Mais que um botequim, esse lugar – apesar de ainda muito novo – já é uma referência na cultura do samba. Ali, isso vem de berço: o Manga fica na Mangueira, e já virou um dos lugares mais concorridos da cidade. No dia 14 de dezembro eles completaram o seu primeiro ano, com festa. O bar tem rodas de samba de quinta a domingo. O cardápio tem feijoada, claro, e também carne assada, rabada com agrião e caldinhos, que variam regularmente. De novo, vamos recomendar conferir o que tá rolando lá no perfil @manga.bar – colado na Quadra da Mangueira (o bar no número 1170, e a escola no 1172 da Rua Visconde de Niterói).
O kassler do Paulinho da Viola
Você sabia que o pai da Velha Guarda da Portela, autor de alguns dos maiores sambas da História, também está com sua digital num dos endereços históricos e consagrados da gastronomia carioca? Ele, que ganhou o seu primeiro cachê como sambista no lendário Bar Zicartola, aquele que teve vida breve e intensa na Rua da Carioca, criado pelo casal Cartola e Dona Zica da Mangueira, onde se comia muito bem, e o samba era de primeira linha (olha o nível do “iniciante” que tocava ali!), é o criador de um prato que se tornou emblemático no Bar Brasil, não muito longe dali, na Lapa. Pois foi ele quem sugeriu aos donos desse ícone da cultura alemã no Rio, entidade fundada em 1907, servir o seu famoso kassler (costeleta de porco defumada) com a brasileiríssima guarnição à mineira. Deu muito certo, e faz sucesso o prato, com tutu de feijão, couve e arroz. Saber do criador dele dá ainda mais sabor ao Brasil – chope acompanha bem que é uma barbaridade! Como eu sempre digo: #vai por mim!
Bar Sambódromo
O roteiro dos botequins ligados ao samba não pode deixar de fora esse vizinho da Passarela, pertinho da Marquês de Sapucaí, ali na Av. Salvador de Sá 77, na Cidade Nova, vizinho à Praça da Apoteose. Aos sábados sempre tem roda de samba ali, um lugar onde a comida surpreende, a partir das 16h, geralmente. É um dia em que o menu é surpresa, não há um prato definido (mas, quinta sempre tem dobradinha, feijoada é às sextas, e domingo é dia de rabada com batata e agrião). Há pratos tradicionais, como carne assada com espaguete, carne de sol com baião de dois, costela de porco à milanesa e iscas de fígado aceboladas com purê de batatas, que figuram no menu regular. Também podemos pedir, todos os dias, para petiscar, coisas como língua de boi defumada e empanada; galinha coreana (tulipinhas da asa com molho de pimenta gochujang); coração de pato ao molho de tucupi; e o famoso polvoralho, nada menos que tentáculos grelhados no pão de alho. Confere lá no @barsambodromo
Samba o ano inteiro
O Rio tem um circuito perene de bares que têm agenda de samba o ano inteiro (deveria ter muito mais, não é verdade?). Tenho alguns preferidos, e indico sem medo de errar o Armazém Cardosão (@armazemcardosao), o Baródromo (@barodromo), o Beco do Rato (@becodorato), o Boteco Boa Praça (@botecoboapraca) e o Carioca da Gema (@barcariocadagema), onde comes e bebes são regados por ótimas rodas de samba, de janeiro a dezembro. Acima de todos, como hors-concours, temos o Bip Bip (@rodadobip), em Copacabana (a partir das 20h, tem samba às quintas e domingos; chorinho às terças e Bossa Nova, às quartas). O clima de carnaval está sempre presente nesses lugares. A programação se intensifica no verão, e ainda mais nos dias anteriores e posteriores ao carnaval, e durante a folia, obviamente. No Baródromo, por exemplo, botequim temático que presta homenagem às escolas de samba, estão rolando oficinas com músicos ligados às agremiações, sempre aos domingos, de 14h às 15h.
Samba de Segunda
Não podemos nos esquecer dos sambas que abrem a semana, sempre às segundas-feiras. No Andaraí tem o Samba do Trabalhador, que esse ano completa 21 anos, provavelmente a roda de samba mais famosa e premiada do Brasil atualmente, e que faz shows também em outros lugares, em outros estados do país e até no exterior (já ganhou Grammy Latino). É um acontecimento, lugar de se visitar obrigatoriamente – para cariocas e visitantes. Outra referência do samba às segundas é a Pedra do Sal, lugar que é um marco da cultura africana no Rio, berço do que hoje entendemos como samba carioca.
Já é Carnaval. Divirtam-se!








