ESCOLA DE NATAL

Fundada em 1993, a Escola de Papai Noel nasceu com o propósito de profissionalizar o trabalho do personagem

Caroline Rocha

Barba branca generosa, roupas vermelhas contornadas por pelúcias que lembram a neve, barriga saliente e aquela risada clássica. Não é difícil, ainda mais em tempos de casas tomadas por luzes pisca-pisca, identificar aquele que o velho clichê chama de bom velhinho. Embora a fantasia popular insista que ele é originário do Polo Norte, entre renas e neve eterna, existe uma espécie de “fonte de Papais Noéis” bem mais ao sul — e fica no Rio de Janeiro.

Fundada em 1993, a Escola de Papai Noel nasceu com o propósito de profissionalizar o trabalho do personagem, elevar a qualidade das apresentações e preservar a magia natalina com responsabilidade, técnica e emoção. A instituição já formou mais de mil trabalhadores, muitos deles aposentados que encontraram na Escola uma oportunidade de reinserção no mercado, renda extra e acolhimento emocional.

Morador de Realengo, Mario Sergio Roque, 70 anos, descobriu o ofício por acaso e nunca mais saiu. “Ser Noel depois da aposentadoria revelou um universo mágico até então desconhecido. Melhorei o relacionamento interpessoal, não só com as crianças, mas com todos”, conta ele, já habituado a ser chamado pelo nome artístico: Roque Noel.

Hoje, como Papai Noel oficial do Shopping Metropolitano Barra, Roque coleciona encontros como quem costura memórias. “Esses momentos são retalhos que compõem meu personagem, como uma colcha de patchwork. Todos engrandecem igualmente este Noel”, descreve, com a paixão de quem vive o Natal muito além do dia 25.

O curso

Por trás da aparentemente despretensiosa e espontânea magia do Natal, há muito trabalho, dedicação e técnica. Durante um mês inteiro, os aspirantes a Noel mergulham em um curso gratuito que passa por interpretação, improvisação, expressão corporal, postura cênica, técnicas vocais, maquiagem, figurino e até cuidados específicos com barba e caracterização. Também aprendem Libras, atendimento inclusivo e comunicação voltada ao público infantil. O Natal, aqui, é profissionalizado.

“O Papai Noel não é apenas um personagem. Ele carrega sonhos, memórias e simboliza união. Nossa missão é formar profissionais preparados para viver essa responsabilidade com verdade e sensibilidade”, afirma Limachem Cherem, fundador da Escola.

A ideia de profissionalização surgiu quando Limachem e o amigo, Conrado Freitas, ambos atores, viram o teatro infantil onde trabalhavam sofrer uma forte queda na bilheteria entre novembro e dezembro. A solução? Um curso de papais noéis… que foi um fracasso. Apenas dois alunos participaram das aulas, que na época, aconteciam em um porão em Vila Isabel, Zona Norte do Rio. Mas o tempo, assim como o espírito natalino, é generoso. Em 2018, uma única turma já reunia 45 alunos.

Hoje, a magia começa em Realengo, Zona Oeste do Rio, na oficina onde são produzidos os figurinos, treinamentos e acessórios que transformam homens comuns nos verdadeiros símbolos do Natal. Enquanto isso, os aspirantes a Noel aprimoram suas habilidades no Centro Municipal de Artes Calouste Gulbenkian, na Praça Onze, Centro da cidade.

De lá, os noéis se espalham pelo estado do Rio. Durante novembro e dezembro, eles são contratados para atuar em lojas, shoppings, hospitais, comerciais de televisão e eventos corporativos. De acordo com a instituição, em média, um profissional pode faturar até R$ 15 mil em 45 dias de trabalho em shoppings. Já as visitas particulares, como em residências e empresas, têm valor médio de R$ 500 por apresentação.

O ambulante Alex Rocha costumava ouvir nos vagões que parecia com o bom velhinho por causa da barba e dos cabelos brancos. Um dia, aos 63 anos, resolveu testar a intuição alheia — e se apaixonou pelo ofício. “Às vezes eu preciso parar de falar [sobre ser Papai Noel], porque a emoção toma conta. As lágrimas começam a querer descer”, confessa. Fora da temporada natalina, ele vende água e refrigerante nos trens cariocas.

“Luto muito para conseguir sair do trem e poder me dedicar completamente ao trabalho de Papai Noel”, desabafa Alex. “Carregar aquela caixa de isopor todos os dias é difícil. Quero estar com as crianças, aconselhando, olhando nos olhos e colocando em prática o que aprendi na Escola.”

A maratona termina em 26 de dezembro, quando toda a turma se reúne para celebrar o encerramento da temporada. É o dia do “Oscar Noel”, prêmio que elege o Papai Noel mais fofo e encantador do Rio de Janeiro em uma confraternização que sela o ciclo natalino e antecipa, discretamente, a contagem regressiva para o próximo dezembro.