Maior cinema de rua do estado pede socorro

Ele é grande, mas não é necessariamente um gigante. Principalmente se for comparado aos cinemões norte-americanos dos anos 50, como o famoso Roxy nova-iorquino e seus seis mil assentos. Raros desses colossos resistiram ao tempo. Inaugurado em 27 de fevereiro de 1959, o Cine 9 de Abril, em Volta Redonda foi projetado incialmente para acomodar duas mil pessoas sentadas (o mesmo que o antigo Roxy de Copacabana), mas teve sua capacidade reduzida para 1.505 assentos visando a melhoria das qualidades acústicas e maior conforto dos espectadores. Mesmo assim, ele é hoje nada mais nada menos que não só o maior cinema do estado do Rio de Janeiro, como o maior cinema de rua com tela única na América Latina. O danado é tão grande que permite apresentações de orquestras sinfônicas completas sobre seu palco. O tempo, porém, é um inimigo sorrateiro. Hoje, com projetores obsoletos, e cadeiras descosturadas aqui e ali, o 9 de Abril não ostenta mais o brilho de outrora.

Em sua noite de inauguração, o cinema exibiu o drama “Noites de Mardigrás” e a renda adquirida foi doada a instituições de apoio à saúde da região. Na década de 1960 ele foi eleito pela imprensa uma das cinco melhores salas do Brasil, muito graças à excelência de seus equipamentos. O empreendimento custou na época 30 milhões de cruzeiros, bancados pelo Clube dos Funcionários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e durante muito tempo foi praticamente a única opção de lazer cultural da Cidade do Aço. O cinema foi oficialmente tombado pelo Decreto 2.070 de 1986, e com isso impedida sua descaracterização ou uso para outros fins não ligados à cultura. Desde então o Clube dos Funcionários luta não só para mantê-lo funcionando, como para levantar recursos para a restauração e formatação de um projeto que o torne economicamente sustentável.  

A decadência dos cinemas de rua é uma triste realidade do cenário cultural. Muito mais do que meros locais de entretenimento, eles se constituíam como espaços de socialização comunitária e construção da cidadania.  Segundo reportagem do jornal “O Globo”, publicada em 2014, muitas foram as últimas sessões para um público cada vez menor. Na década de 1960, somente na cidade do Rio havia 198 cinemas de rua.  Do total, 62 comportavam plateias superiores a mil assentos. Hoje, as salas de rua mal passam de uma dúzia.

Em 2015 foi formada uma equipe multidisciplinar para elaborar um plano de restauração do cine 9 de Abril. “Com o objetivo de transformar o imóvel em iniciativa economicamente viável, constatamos que soluções tidas até então, como inexequíveis, estavam apenas tecnicamente inacessíveis”, diz a direção do clube. O time consultou órgãos de tombamento, fez estudos de acústica e viabilidade de mercado e finalmente contratou um escritório de arquitetura para desenhar o projeto. No fim do ano passado, em uma série de reuniões com o Inepac e autoridades estaduais da área de cultura, foram colocadas na mesa outras ideias, desde a transformação do mezanino em um grande restaurante, até a divisão do cinema em três salas menores, mantendo suas características arquitetônicas originais. Até agora, o único consenso é entre os amantes da sétima arte, que torcem para que este drama tenha um final feliz.